O anjo da guarda de Janynne
Já foram vários os post aqui no blog contando a história da mineirinha Janynne Gomes, uma campuseira que, neste exato momento, vive a chance de desbravar um mundo completamente novo ao conhecer o Engineering Boot Camp, da NASA (veja algumas imagens dos estudantes brasileiros na NASA).
Afinal, como veremos em seguida, não é todo dia que estudantes brasileiros têm uma chance desta proporção dentro da agência espacial norte-americana. E como poucas coisas na vida são conquistadas sem a ajuda, por menor que seja, de outra pessoa, com a jovem brasileira protagonista desta história não poderia ser diferente. Afinal, para ela, Marco Figueiredo foi a porta de entrada e, hoje, é sinônimo de segurança e motivação para seguir acreditando em um grande sonho.
O blog, então, aproveitou para descobrir junto ao pesquisador brasileiro, que subiu no palco principal da Campus Party Brasil deste ano, os detalhes que compõem esta experiência tão enriquecedora para uma jovem brasileira. Confira abaixo a entrevista deste verdadeiro anjo da guarda de Janynne e, quem sabe, de uma geração inteira de futuros talentos brasileiros em busca de uma experiência única e inovadora.
Que tipo de relação a NASA costuma manter com instituições de ensino brasileiras? Esta oportunidade conquistada pela Janynne é muito rara ou é parte de um processo já internalizado pela agência espacial norte-americana?
Marco Figueiredo: Eu não conheço todas as iniciativas da NASA no Brasil, mas não sei de nenhuma relação da NASA com instituições de ensino brasileiras. Esta oportunidade que criamos para a Janynne é única no sentido de que é a primeira vez que o NASA Engineering Boot Camp convida uma estudante brasileira. Há estudantes do México e Argentina no programa.
Sabemos que a experiência será de apenas um mês. Quais são as chances de Janynne voltar aos Estados Unidos para participar de todas as etapas do Engineering Boot Camp?
Marco: As chances são excelentes dela voltar, desde que ela possa internalizar os conceitos do Engineering Boot Camp e retornar com idéias de projetos para sua universidade (Univale) que, se implementadas, poderão atrair a atenção do diretor do programa, Mike Comberiate. Nosso plano é visitar a Univale no futuro para analisar o impacto da visita da Janynne a NASA.
Os projetos desenvolvidos no Engineering Boot Camp são abertos e os estudantes podem continuar desenvolvendo os projetos após retornarem para suas escolas e, com o consentimento das escolas, podem usar seus trabalhos para receberem créditos escolares. Outros alunos podem ser envolvidos nos projetos seguindo a liderança daqueles que participaram do Boot Camp. Aqueles que se destacarem, poderão, mais tarde, participar do Boot Camp também. É um sistema de mérito por resultado. Quem mostra resultado abre oportunidades para si.
Passadas estas duas fases, quais seriam as chances da estudante brasileira conquistar um espaço como membro da NASA?
Marco: As regras mudaram muito desde o atentado terrorista de 11 de Setembro de 2001. Hoje já não é mais possível alguém entrar na NASA como eu entrei. Ou seja, fiz mestrado com visto de estudante e, após terminar o mestrado, trabalhei num projeto ainda com visto de estudante em treinamento prático. Depois, mudei meu visto para o de trabalhador temporário e, mais tarde, recebi um Green Card (residente permanente) e, finalmente, a cidadania americana. Devido às restrições nas regras de segurança, hoje só é possível trabalhar lá com um Green Card ou cidadania americana. E não é possível conseguir um Green Card via visto de trabalho, como no meu caso.
Um caminho possível para a Janynne um dia trabalhar para a NASA seria buscar um mestrado após terminar seu curso de gradução. Ela poderia, então, buscar um emprego na indústria espacial privada e, quando tiver o Green Card, ela poderia buscar um emprego na NASA. A indústria espacial privada está crescendo muito rápido e poderá oferecer oportunidades tão boas ou melhores.
Já há, ou você acredita que venha a existir, a possibilidade da NASA aumentar sua prospecção por talentos brasileiros? As universidades têm a qualificação necessária para formar estudantes que captem o interesse da agência espacial mais famosa do mundo?
Marco: Eu não diria que existe, hoje, uma iniciativa da NASA em prospectar talentos brasileiros. O que aconteceu foi o contrário. Durante a minha palestra no Campus Party, a Janynne me perguntou como poderia seguir caminho semelhante ao meu e, um dia, trabalhar na NASA. Eu achei a pergunta dela desafiante e, ao mesmo tempo, audaciosa. Eu percebi que ela tinha um sonho e que buscava sua realização e usou a oportunidade para abrir portas. Ela manteve contato comigo via email depois da conferência e, mais tarde, eu diria que por coincidência, fiquei conhecendo o Mike Comberiate, que me falou do seu Engineering Boot Camp.
Eu perguntei a ele se poderia abrir uma oportunidade para uma estudane brasileira e ele aceitou. Dai eu fiz contato com ela e procurei saber melhor sobre suas habilidades em Inglês, suas notas na escola e recomendações de seus professores. Juntos, Mike e eu avaliamos que ela tinha capacidade para participar do programa e já havia demonstrado iniciativa. O processo dela foi complicado exatamente porque foi a primeira vez que estamos fazendo isso e estamos descobrindo o caminho das pedras. As negativas de visto dela no Consulado Americano foram resultado de erros nossos na pressa de fazer a visita dela dar certo para este verão.
Graças a Deus, ficou tudo resolvido e ela está aqui na NASA vivendo o sonho dela. Se toda esta experiência da Janynne vai continuar e se expandir para outros estudantes brasileiros, só o futuro vai nos responder. Eu acredito ser esta a intenção do Mike Comberiate e nosso plano é levá-lo ao Campus Party. No que depender de mim, eu darei todo o meu apoio para que não só continue, mas que cresçam as oportunidades.
Você citou várias vezes a importância do trabalho do Mike Comberiate. Qual é a grande lição deixada por ele aos demais membros da agência ao oferecer estas oportunidade a jovens estudantes de talento?
Marco: Na minha opinião, o Mike investe muito na formação do espírito de explorador dos estudantes. Eu estou participando do Engineering Boot Camp neste ano como mentor e percebo que ele está mais preocupado com os estudantes do que com os projetos. Isto é uma grande lição para outros programas da NASA que envolvem estudantes. Eu mesmo já tive vários participando de minhas pesquisas e confesso que minha preocupação maior foi sempre encaixar o estudante no sentido de gerar produtividade para o projeto e não necessáriamente ao estudante. Se o estudante é capaz de gerar produtividade, é ótimo para as duas partes. Caso contrário, ele, ou ela, fica abandonado num canto lendo livros e viajando na Internet.
Ao entrar no laboratório do Engineering Boot Camp, você percebe imediatamente a energia dos jovens. Assim que percebem a entrada de um mentor, eles se aproximam e procuram envolvê-lo nos seus problemas técnicos. É um ambiente muito ativo e cativante. Este ano, são 50 alunos, cada um mais envolvido que o outro. Esta rede se expande quando os estudantes voltam para suas escolas levando projetos do Boot Camp. Mesmo se não vierem a trabalhar para a NASA, eles ficam conhecendo um grupo de pessoas impressionantes que com certeza serão líderes em suas carreiras. Fazer parte dessa rede já é uma grande conquista.
Divulgamos no blog uma campanha para arrecadar fundos que ajudariam Janynne a custear sua viagem. Como está a campanha até o momento?
Marco: A Univale, universidade onde a Janynne estuda, está pagando metade da viagem dela. A nossa campanha via ONG Gemas da Terra é para ajudá-la a pagar a outra metade dos custos da sua viagem, que estimamos em 9 mil reais. Confesso que ainda não tivemos tempo para fazer uma boa divulgação da campanha, e a própria Janynne vai ter a chance de fazer isso a partir desta semana.
Nossa expectativa é de receber pequenas doações, em torno de R$5 a R$20, de pessoas que se sentem sensibilizadas a ajudar Janynne a alcançar este sonho. Quem quiser colaborar, pode fazer uma doação ou divulgar a página www.gemasdaterra.org.br/nasa.
O fato de Janynne ter conhecido o seu trabalho através da Campus Party é motivo de orgulho para todos nós. Você esperava este tipo de repercussão quando aceitou o convite para ser palestrante do evento? Você acredita que ainda há nas pessoas aquele sonho por explorar o espaço?
Marco: Como disse na minha palestra, tive que falar de um tema genérico, pois as regras de segurança da NASA não me permitem falar de meu trabalho em público. Eu escolhi o tema da colonização do espaço e fiquei impressionado com o interesse das pessoas no Brasil sobre esse assunto, tanto que criei um blog para continuar explorando o tema, o viagensespaciais.blogpsot.com.
A exploração do espaço é um sonho natural do ser humano. Acho que muita gente tem este sonho e precisamos divulgar melhor nossas habilidades nesta busca. Eu acredito num futuro em que colônias espaciais, com milhares de seres humanos, viajarão pelo espaço, e crianças nascidas nessas colonias visitarão a Terra para conhecer o berço de nossa civilização. Eu espero ter a oportunidade de continuar falando sobre este assunto na Campus Party, pois vejo ali uma energia semelhante àquela que percebo no NASA Engineering Boot Camp.
Que tipo de mensagem você acredita que o exemplo deixado por Janynne oferece aos outros campuseiros?
Marco: Seja audacioso e corra atrás de seus sonhos, que as portas se abrirão para você. Não desista nunca. Seja humilde e reconheça seus erros nas derrotas. Procure não pisar nos outros para chegar no seu objetivo e peça desculpa quando ofender alguém. Acredite nas pessoas que se oferecem para te ajudar. Ignore aqueles que dizem que voce não é bom o suficiente. Não tenha medo de se sentir inspirado. Sonhe alto. Sonhe muito. Nada é impossível para o ser humano.
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